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24 de Agosto de 2019

O espantoso e inusitado caso do Advogado do semáforo

Fátima Burégio , Advogado
Publicado por Fátima Burégio
há 3 meses

Desde que adentrei à sala no primeiro dia de aula, eu já sabia que iria encarar dias difíceis, um país, à época, com quase um milhão de Advogados inscritos nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil, profissionais percebendo salário módicos, cobranças excessivas, tanto de clientes, quanto de possíveis patrões, estresse evidente, pouco dinheiro no bolso, e um rigoroso Código de Ética e Disciplina a ser seguido.

Partindo deste princípio, ávida por tornar-me Advogada, quando estava no meio da festa, constatei, preocupada, que a coisa era bem mais séria que eu imaginava antes de iniciar a graduação. Todavia, como já estava no meio da dança, lembrei-me de uma intrigante frase: - Se não quer brincar, não desça para o playground, minha filha!

Desta feita, em meio aos inevitáveis e pedagógicos embates, sigo jornada, um dia cantando, um dia sorrindo, mas sempre existindo e resistindo, como bom soldado que deve ser um Advogado vocacionado para tanto.

Avante!

Ontem recebi por meio dos meus contatos, a triste e lamentável, além de reflexiva imagem de um Advogado, jovem, bonito, bem trajado, bem barbeado, sapato lustrado, exibindo uma faixa enorme em um semáforo do Distrito Federal pedindo emprego e liberando um telefone celular para efetivos contatos.

A lágrima teimosa insistiu em cair. A danada é incontrolável em mulheres de meia idade e com hormônios descompensados pelas transições naturais do ciclo de vida de toda fêmea.

Assim, retoquei a maquiagem, pensei numa forma de estender a mão ao nobre e corajoso colega, quem sabe, ligando para ele e pedindo uma conta bancária para remeter uma gotinha de amor, e segui reflexiva.

Hoje recebi em minhas redes, a doce nova de que o Advogado em tela, obteve êxito em sua inusitada empreitada, e está participando, neste instante, de várias seleções, pois muitas pessoas e empresas foram solidárias à causa do jovem profissional.

Ora, inteligente, humilde e com um curriculum de dar inveja a muita gente, posso profetizar, sem medo de errar, que estará novamente inserido no mercado em breves dias.

Que maravilha!

Não há notícia melhor!

No entanto, me questionei:

- E se a moda pegar?
- O que fará a OAB?
- Foi correta a inusitada atitude do desesperado e desempregado Advogado do Distrito Federal?

Primeiramente, ao compartilhar a imagem, um colega que labora em uma OAB do Brasil, me disse:

- É lamentável e compreensível a atitude do Advogado, mas ele poderá responder processo ético disciplinar, ou, no mínimo, será advertido pela Ordem e passará por um curso de aperfeiçoamento, minha amiga!

Preocupada, fui à caça e, não é que dispositivos constantes no Código de Ética, na Resolução 02/2015 do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, nos seus artigos 39 e 40, nos dizem que:

Art. 39. A publicidade profissional do advogado tem caráter meramente informativo e deve primar pela discrição e sobriedade, não podendo configurar captação de clientela ou mercantilização da profissão.
Art. 40. Os meios utilizados para a publicidade profissional hão de ser compatíveis com a diretriz estabelecida no artigo anterior, sendo vedados:
I - a veiculação da publicidade por meio de rádio, cinema e televisão;
II - o uso de outdoors, painéis luminosos ou formas assemelhadas de publicidade;
III - as inscrições em muros, paredes, veículos, elevadores ou em qualquer espaço público;
IV - a divulgação de serviços de advocacia juntamente com a de outras atividades ou a indicação de vínculos entre uns e outras;

V - o fornecimento de dados de contato, como endereço e telefone, em colunas ou artigos literários, culturais, acadêmicos ou jurídicos, publicados na imprensa, bem assim quando de eventual participação em programas de rádio ou televisão, ou em veiculação de matérias pela internet, sendo permitida a referência a e-mail;

VI - a utilização de mala direta, a distribuição de panfletos ou formas assemelhadas de publicidade, com o intuito de captação de clientela.
Parágrafo único. Exclusivamente para fins de identificação dos escritórios de advocacia, é permitida a utilização de placas, painéis luminosos e inscrições em suas fachadas, desde que respeitadas as diretrizes previstas no artigo 39.

Em conversas privadas, escutei amigos e parentes, inclusive de outras profissões, dizerem:

- Ah, Advogado tem mais é que se virar mesmo!
- Tem que correr atrás da sua bolacha cotidiana!
- Tem mais é que fazer isto mesmo, meu amigo! - Vai esperar o quê?

Por outro lado, escutei colegas de profissão, pesarosos, pontuarem:

- É lamentável, amiga! A que ponto chegamos!

Restabelecida, ponderando os dois lados, senti e ainda sinto na pele, ou melhor, no corpo, na alma, no coração e no bolso, a enorme dificuldade em dar os primeiros passos na Advocacia; todavia, não me desespero, pois eu já sabia o que me aguardava pós graduação.

Vamos filosofar? É crer pra ver!

Sou águia e aprecio alturas. Ali, costumo me reinventar! Se, por infortúnios da vida, por escolhas impensadas ou ainda por fatos imprevisíveis, vier a cair; não devo me importar, pois o meu colchão, eu fiz de molas!

Vida que segue, companheiros!

Está difícil, mas uma hora melhora!

É crer pra ver!

160 Comentários

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Acredito que ele não tenha sido o primeiro a pensar nisso, mas foi o primeiro a criar coragem e fazer. O mundo do Direito se tornou tão instável e por diversas vezes desumano. Cada vez mais os escritórios tratam seus contratados como escravos e elevam os requisitos de contratação ao nível ministro do STF. São tantos pontos a debater sobre a carreira no Brasil. Precisa ter peito para ser advogado e mais ainda para ser visto. continuar lendo

Coragem de fazer o que doutora? Se expor ao ridículo? Não se fala num trabalhador comum pedindo emprego com uma atitude nobre ou “corajosa”, aspas, pois, literalmente ninguém precisa de coragem pra buscar uma oportunidade de emprego, mas sim, força de vontade, se fala de um advogado que expôs toda uma classe de uma forma inadequada. Não estamos nos Estados Unidos que pra tudo se prolifera com outdoors e banners, quanto maior e mais cara a propaganda melhor pode ser seu advogado! Não se trata de como os escritórios tratam seus contratados muito menos se precisamos de “peito”, é simples questão de como se portar existindo um código de ética que impõe regras, infelizmente não estamos na Disneylandia! continuar lendo

O Dr. fala desta maneira porque carrega essa opinião. Tenho todo o direito de discordar dessa opinião tão rasa. As pessoas gostam de olhar a situação do outro com defeito e nem mesmo param para se colocar no lugar do outro. Ora Dr., não tem solidariedade com o colega de classe? Sugiro que não continue assim, amargura estraga o coração. Ao menos por um segundo se coloque no lugar dele, não importa se foi por marketing ou necessidade. O importante é que ele levantou o debate do tema mais importante na classe dos advogados atualmente, pare de ignorar o seu próximo, porque da próxima vez pode ser o Sr. nessa situação. Ridículo é pensar no próprio umbigo. continuar lendo

Defeito doutora, é pensar que é preciso coragem pra se ir buscar ofertas de emprego, não se trata de ver a situação do outro com defeito, mas se o que ele fez está adequado aos padrões da advocacia, pelo visto a senhora levou pro lado pessoal, não escrevo em nenhum momento que não tenho solidariedade com o colega de classe. Não importa se foi por marketing? Mas é exatamente essa a questão doutora! Se o que ele fez pode ou não se enquadrar como publicidade! A questão é essa! Se minha opinião foi rasa, peço que desconsidere, e não ignore a verdadeira razão do debate. continuar lendo

Drª, gostaria de parabenizá-la pela colocação. É evidente que existe um código de ética que disciplina a atuação dessa classe, todavia, vivemos numa época de mudanças sociais, políticas, econômicas, cultural, moral etc. Somos instigados todos os dias a ver nos veículos de comunicação a descredibilidade que passa nossas instituições. Qualquer infrigência nos pormenores é suficiente para escandalizar a instituição, agora, ajudar quem precisa e reconhecer que a coragem é de poucos, não reconhecem. Acredito que os críticos desse rapaz, pegue o telefone dele e pede o número de agência e conta e deposite uma mesada todo mês, assim ele não vai procurar serviço. continuar lendo

Josenias fico muito feliz em ver que nem todos pensam pequeno. Eu defendo o rapaz porque sei o que ele está passando, eu e mais da metade da classe dos advogados vivemos isso diariamente. Você tem toda razão, o mundo muda e nós devemos mudar junto. continuar lendo

As pessoas julgam sem saber a realidade de quem é julgado. Sabe-se lá a situação de precariedade financeira dessa pessoa? Poderia estar com problemas sérios e em desespero tomou tal atitude. Jamais devemos julgar sem antes saber de todos os pormenores. É cômodo apontar o dedo para qualquer um por atitudes pouco ortodoxas quando se está com a barriga cheia e mais ainda a conta no banco. No desespero a gente faz coisas que em situações normais jamais passariam pela cabeça. Quem passou fome, teve a luz cortada e/ou sofreu ação de despejo por não ter como honrar seus compromissos sabe do que estou falando. continuar lendo

Nobres colegas, não censuro meu colega de profissão e conterrâneo, cada um sabe aonde o sapato aperta. Nem todos possuem vocação para militar na dura e íngreme estrada da advocacia, alguns se empolgam com a profissão, mas quando enfrentam a realidade esmorecem. Não vislumbro nenhuma infringência ao Código de Ética do Estatuto da OAB, pois o mesmo não estava fazendo propaganda para angariar clientes e sim, lutando pela sobrevivência ao pedir um emprego. Estou há muito tempo vivendo da advocacia, conheço as dificuldades do exercício da profissão, persisto nesta estrada, porque amo a profissão, mas sei que não é fácil, principalmente para o advogado iniciante. Alguns críticos esquecem que vivemos em país dividido em vários Brasis, situação agravada por um certo elemento político que usa o nome de molusco e ainda usurpou os cofres públicos por mais de doze anos, ele e sua trupe avermelhada. Boa sorte para este garoto de coragem. continuar lendo

Concordo com você doutora. Embora não ache que foi coragem. Acho que foi desespero mesmo só que sente na própria pele as agruras do desemprego é que sabe o que é isso. Não acho que o jeito dele é compatível com o nosso Código de Ética só que também não acredito que ele tenha que ser aplicado ao pé da letra.

Ainda acredito que toda norma (inclusive o nosso Código de Ética) deve respeitar a teoria tridimensional do direito lecionada por Miguel Reale (toda norma tem que ter valor, norma e fato).

E numa sociedade em que muitos vivem em crise econômica não dá para ter uma aplicação da lei a pé da letra como muitos desejam, pois acredito que no dia que a norma for aplicada dessa forma indiscriminadamente sem considerar o as nuances do fato e os valores sociais não haverá mais necessidade de advogados, promotores, juízes etc.

Pois aplicar uma lei ao pé da letra qualquer um faz.

Dizer que a lei tem que ser aplicada do jeito que está no Código de Ética simplesmente porque esta lá sem nenhuma verificar as nuances de cada caso é algo que se espera de qualquer cidadão comum menos de um bacharel em direito. continuar lendo

Parabéns pela seu comentário que "esquece" as regras da OAB de publicidade ou outros extensos parágrafos para punir nosso colega, no meu caso, "futuro colega", pois ainda estou estudando para ser um brilhante advogado.
Não brilhante advogado, para muitos me chamarem de: "doutor", porque isso, é mera formalidade, porque nossa profissão, mexe muito mais com a parte emocional de uma pessoa, do que com sua parte financeira.Posso até parecer que estou saindo do assunto, mas na verdade, a minha pretensão é fazer um link de "humanidade e ego".
Temos que ter humanidade pra lidar com as pessoas, e a todo momento o advogado tem que lidar com o ego das pessoas também.Não é um emprego ou a colocação do mercado, é saber lidar com o ego das pessoas, que às vezes, apodrece a humanidade. continuar lendo

Coitado. O cara tá pedindo socorro pra arrumar um emprego (e nem diz que é como advogado) e tem gente vomitando ética, leis e princípios aqui. Todos, claro, bem alocados na profissão. Foi-se o tempo que ser advogado era uma profissão distinta para poucos afortunados, meus filhos. Hoje tem advogado em tudo que é canto e esquina e para a maioria deles é muito difícil arrumar trabalho em um grande escritório ou abrir o próprio escritório (pior ainda). Desçam do pedestal. Fico fulo com a falta de humanidade da pessoas!!!!! continuar lendo

Chegou-se nesse ponto por omissão da OAB e pela banalização da profissão.

Não critico a atitude do advogado, pois só ele sabe o que está passando. Se fez isso é porque precisa.

Outros advogados recebem polpudos honorários oriundos de atividades duvidosas e a OAB não vai atrás da possível violação da ética. continuar lendo

Entendo severamente que nao houve violação da ética. Te convido a ler meu texto explicando esse meu ponto de vista, que escrevi em resposta ao comentário do nosso colega abaixo, o Dr. Orlando Lima... Acho que a coisa toda merece reflexão sim... continuar lendo

Concordo. Estou vendo diversas críticas ao advogado, mas só ele sabe pelo que está passando. continuar lendo

Concordo! Tem que ser pobre, porque se for rico, as atividades duvidosas não infringem o código de ética! continuar lendo

OAB só vai atrás de receber milhões de reais 3x por ano, em inscrições em suas injustas provas e incompetentes corretores. continuar lendo

Eu penso que a situação retratada pelo pedido dele, tal e qual milhares de outras pessoas em milhares de profissões e atividades é fruto da situação econômica-financeira-social-conceitual-filosofal pela qual passa o nosso país e a nossa sociedade. É uma infelicidade muito grande ver isto ocorrer. continuar lendo

Inteligente ele não é, pois Advogado é profissional liberal, Advogado empregado é exceção. Ao invés de ficar de terno no semáforo seria mais inteligente ir visitar clientes, ir em obras conversar com pedreiros na hora do café, ir em postos de combustível conversar com caminhoneiros, ir no fórum, no Procon e no INSS passear. Logo ele estaria precisando contratar uns estagiários. continuar lendo

Concordo em gênero , número e grau com vossa excelência.Para mim é uma atitude ridícula DESSE ADVOGADO. continuar lendo

Mas ele queria um emprego. E muitas empresas e firmas de advocacia contratam advogados com carteira assinada. Cada um sabe o que quer e do que precisa. E não é vergonha correr atrás. Cada um faz isso de um jeito diferente. Inteligente ou não, esse foi o jeito dele. E surtiu efeito. Quem sou eu pra julgar. O importante é trabalhar na área que escolhemos. Quando o profissional chega ao ponto de ter largar tudo, inclusive o sonho, pra ir vender carros ou "Mary Kay" e viver disso, aí sim, não importa quanto dinheiro ganhe fazendo uma coisa que basta ensino fundamental para fazer. Esse fracassou. continuar lendo

Concordo em partes, Christina Morais. Mas achei um pouco contraditório da sua parte, pois transpareceu um julgamento no seu comentário. O fato de um profissional largar tudo, inclusive o sonho (defina sonho), pra ir vender carros ou "Mary Kay", não o torna fracassado, mesmo que precise apenas de "Ensino Fundamental" pra fazer isso. Se diploma fosse critério para obtenção de resultado, não existiriam tantos empresários de sucesso dando palestras para doutores e advogados por todo o Brasil. continuar lendo

Compartilho da sua opinião! Pensei que eu ia me deparar com comentários diferentes do Facebook por aqui, mas infelizmente, vejo muito vitimismo por parte dos colegas também, lastimável. continuar lendo

Concordo nobre colega. continuar lendo

Discordo do colega. Por acaso você é de Brasília? Aqui o "buraco é mais embaixo", pois muitos escritórios de advocacia tem por trás, nomes de peso da magistratura. Se não, de procuradorias, de empresas públicas e que infelizmente a OAB não proíbe de advogar. A concorrência é desleal reforçada por faculdades "aos quilos" de direito pelo país. Com a palavra a OAB. continuar lendo

@rafacolle Não concordo com sua opinião, mas respeito. Só me dei o trabalho de te marcar aqui para responder à sua pergunta específica: "defina sonho". Bem, no caso em comento estou falando do sonho de ser advogado, lógico. Se a pessoa fez Direito por fazer, só porque não passou em Medicina, não deu certo na carreira, largou tudo e foi fazer outra coisa, não se trata de fracasso. Estou supondo, é claro, que estamos diante de um colega que tem o sonho de ser advogado. Como tantos outros que conhecemos (todos nós conhecemos alguém), que por fracasso profissional abriu mão sim do sonho de ser aquilo que escolheu ser e se rendeu à urgência de alimentar a si mesmo e à sua família com qualquer coisa que apareceu na frente. Eu não sou hipócrita em negar que essa realidade existe. Mas é isso, nesse caso específico, o sonho seria o sonho de ser advogado. Namastê. continuar lendo